A carta que você nunca recebeu

Não adianta eu me olhar no espelho e afirmar, com meu tom mais firme, que passou. Não adianta eu repetir ou recitar… Não passou.

Consigo dividir o que passamos em algumas fases. A primeira delas, quando as coisas eram flores. Era quase como se o aroma inconfundível do amor nos rodeasse e nos inebriasse da cabeça aos pés; costumávamos ignorar a tudo e a todos simplesmente pelo fato de termos, um no outro, a proteção que precisávamos. O arrepio na espinha, agourento, porém, todos os dias, me lembrava de algo que não estava certo. Eu ignorei.

Depois veio a fase em que as partes sobrepujaram o todo. Não adiantava mais ignorar todos os sinais porque eles haviam se tornado a nossa verdade. O amor parecia não ser o suficiente; sequer era amor. Mostramo-nos diferentes do que éramos. Eu poderia ter ignorado… Poderia ter dado um jeito… Mas escolhi ser egoísta. Escolhi mergulhar no prazer de sofrer e de sentir a dor e de me sentir viva; fui o monstro que você talvez desconfiava, a carcaça que ainda uso como capuz sobre a cabeça, a qual me faz parecer algo que não sou. Ou algo que não queria ser.

A terceira fase é a última. Parece brincadeira… O três, o número da união, significou a nossa destruição. Seja por minha culpa, ou pela sua. Já não sei mais dizer, sabia? Não me lembro. Não tiro o peso dos meus ombros… Mas será que você não poderia ter tentado?

Lembra-se da última vez que nos vimos? Bem, eu parecia um gelo por fora, mas, por dentro, estivera ensaiando maneiras de me derreter, ao menos uma última vez, em seus braços.

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